quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ENCRENCA NO ALOJAMENTO

Na hora de escolher o beliche fui um dos últimos, sabe-se lá por quê. Fiquei no canto mais à esquerda, na parte de baixo, porque um veterano reivindicou a parte de cima. Pois era o L., a quem, depois do incidente da tentativa frustrada de trote, eu simplesmente ignorei. Ele não foi muito educado ao expressar sua preferência, mas também seria pedir demais.
Só na hora de ir para a cama percebi que o rei dos chatos não tinha aparecido, apesar do toque de silêncio, e alguém comentou que ele tinha baixado à terra e voltaria de yole em algum momento da madrugada. Minha chance de acordar nomeio da noite por um criador de caso era alta.
Aí, tive uma brilhante idéia - mesmo porque não sou como o Einstein, que teve uma única boa idéia.
Eu iria dar uma lição no L., para deixar de ser prepotente - hoje seria um bully. Como ele não estava dormindo, eu não poderia escorbutá-lo pessoalmente. Resolvi espalhar pasta de dente na fronha e em boa parte do lençol. Quando ele se deitasse iria ficar empastelado - ou seria pastificado - na cabeça e pelo corpo.
Claro que fiz isso reservadamente, assim não daria chance a ninguém para corrigir essa imensa bobagem. Mas contei só para um colega mais chegado. Este meu segundo erro, logo se verá por quê. E fui dormir o sono dos inocentes. Dormi sem maiores dificuldades. E acordei com um escarcéu.
Alguém acendeu as luzes do alojamento aos berros de "Quem foi o @#%!! que escorbutou minha cama?" Tinha sido eu o @#%!! que escorbutou a cama do veterano de serviço de polícia. No início ninguém se acusou, também ninguém me acusou, sinal de que eu tinha sido mesmo cauteloso. Meu amigo também ficou quieto. Mas ele sabia que o @#%!! era eu. E eu não estava gostando nem um pouco de ser chamado publicamente de @#%!!, sem reagir. Continuei deitado, mas fui ficando vermelho, não sei se só de raiva, mas também de vergonha, embora só eu notasse e, afora meu amigo, só eu soubesse por quê.
L. alternava prepotência e resmungos do tipo: "É um absurdo, isso é coisa de moleque, não pode escorbutar material, material é sagrado". Para se ver que mesmo o indisciplinado mor, quando precisa se refugia em regras que o protegem. Depois de resmungar muito ele embrabeceu de novo: "Quero ver se esse covarde @#%!! é homen para se acusar, que vou dar uma porrada na cara para deixar de ser @#%!!.
O que diz o abc da sobrevivência em condições desfavoráveis? Relaxa e te faz de surdo. Mas eu não podia fazer a única testemunha de surda, nem de muda. Meu amigo não me dedaria, mas a essa altura já devia ter comentado com um ou outro, para todos se divertirem com os dissabores do rei dos chatos. Mas cedo ou mais tarde todos saberiam que eu ficara quieto. Estava quieto por ser malandro, não por ser corajoso. Se eu fosse malandro, para começar, não teria escorbutado um veterano...
Na enésima vezem que ele me chamou de covarde @#%!!, o sangue me subiu à cabeça, eu levantei da cama calmamente, nem tão devagar que parecesse provocação, nem tão depressa que parecesse fuga, para usar a expressão atribuída ao Washington Luiz ao deixar o Catete rumo ao exílio - metáforas heróicas são o meu forte! Eram duas fileiras de beliches, e eu encarei meu algoz no meio do corredor estreito, com os braços abertos, as mãos apoiadas nos beliches de um lado e do outro. Não era uma atitude de desafio que eu queria passar, era mais uma constatação: " 'cê vai bater, então bate". Ele tinha, no mínimo uns 10cm mais do que eu e era bem mais largo. Além disso, esta a fim de brigar e eu, nem um pouco... Dentro da minha cabeça, meus dentes saltavam para todos os lados e eu saía carregado para a enfermaria. Minha estréia no serviço prometia, e eu ficaria marcado como molenga e provocador.
L. me encarou fixamente, como esperando que eu desse sinal de agressão para se desculpar caso o incidente fosse levado ao oficial de serviço - que iria ficar contentíssimo em ser acordado no meio da noite. Me encarou fixamente, e... nada, simplesmente nada. Ficou resmungando repetidamente que não se escorbuta material, que calouro folgado, pegou as coisas dele - o "material" escorbutado - e foi escolher outro beliche.
No ano que se seguiu, até o juramento de Guarda-Marinha dos nossos veteranos, essa foi a última vez de que eu me lembre ter cruzado com L. no meu caminho. Se ele só tivesse existido na minha imaginação, não teria sido diferente. Mas ainda hoje, de pensar no momento em que abri os braços no alojamento e mandei ele bater, ufffa! até hoje sinto o gosto de adrenalina na boca.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A PRIMEIRA NOITE DE UM NAVAL

Os primeiros dias de trote no CIORM não tinham nada de especial. Nada daquelas tolices de medir a ponte com palitinhos ou engraxar as botas de um veterano. Coisas ainda mais bobas, como mandar o calouro se camuflar com um galho de mato ou rastejar no barro como bom naval. Eu passei quase o tempo todo desapercebido, e até fiquei um pouco ressentido, porque ninguém vinha me dar trote?
Mas veio um: o L. era um veterano naval que escolhia os navais para dar trote. Pra mim, ele queria algo realmente inovador: "Calouro pega essa camuflagem e te vira!" - isso, brandindo um galho meio esquálido. Eu, que estava conversando com um veterano, meu colega de ginásio e colegial, também naval, até me animei para ajudar o L. a cumprir seu papel de rei dos chatos.
Mas aí meu colega veterano interrompeu: "Deixa o meu amigo quieto e vai brincar noutro lugar. Por que V. não vai se meter com um intendente para provar que naval é mesmo macho!" Eu ainda quis interceder pelo L., mas ele já tinha desistido.
Aí veio o primeiro serviço na Ilha. Eram seis turmas, três do primeiro e três do segundo ano, e a cada seis dias ficava um grupo de serviço, mesclando os dois anos e as três armas. Todo mundo reclamava amargamente de ficar de serviço uma noite por semana na Ilha, sem praticamente nada para fazer. Mas, no fundo, todo mundo, ou quase todo mundo, gostava de vários aspectos do serviço, a quebra da rotina, a conversa jogada fora - na verdade no mar - até altas horas, com o ruído das marolas batendo no costado do cais e, o melhor de tudo, a volta para casa no dia seguinte tinha outro valor.
E havia os safos. Evidentemente, o L. era um deles. Todo mundo, depois de algum tempo, conhecia o caminho das pedras para atravessar o pedaço de baía do cais do Ministério da Marinha até a Ilha das Enxadas. Era uma opção conhecida e tolerada, para os atrasados, tomar um yole no cais e tentar chegar a tempo. Alguns preferiam o cais do CIAW, de onde podiam tentar passar desapercebidos e não perder pontos por indisciplina.
Mas L. estava entre os mais safos, os que contratavam um yole para buscá-los na Ilha à noite. Depois fiquei sabendo que não havia dia de serviço em que o L. deixasse de baixar à terra e regressar de yole, na chamada calada da noite.
Na minha primeira noite de serviço, minha única preocupação era a de não ser escorbutado - lambuzado de pasta de dente durante o sono, o trote mais chato que se pode imaginar. E o candidato a escorbutador mor, quem era? O próprio L., rei dos chatos, que estava de serviço de polícia, em ótima posição para humilhar os calouros. Quando eu soube que ele tinha baixado à terra, em vez de simplesmente ficar aliviado, eu, calouro de primeira viagem, escorbutei um veterano.
(continua)