quinta-feira, 17 de novembro de 2011

DILEMAS A MEIA-NAU

Quando Você punha os pés num navio de guerra pela primeira vez, só então percebia como estáva despreparado para a vida a bordo. Muita coisa a gente até sabia o nome. Ou tinha uma noção do que se tratava. Em parte por causa das aulas de Marinharia e, também em partee, de tanto ouvir falar a marujada e os veteranos que já tivessem embarcado no anto anterior.
Não me refiro a se equilibrar no convés em alto mar, resistir ao enjoo, essas coisas: não tínhamos uma idéia sequer da rotina que nos esperava, nem do tipo de atividade ou inatividade a que seríamos submetidos. É fácil entender por que, pelo menos em alguns aspectos.
A verdade é que éramos rigorosamente inúteis para o andamento das coisas - digo todas as coisas, da navegação à segurança, passando pela administração do tempo e das atividades de todos os embarcados. Evidentemente, não éramos capazes de desempenhar a imensa maioria das funções a bordo, uma vez que tudo o que aprendíamos era estritamente teórico - embora eu prefira dizer, com mais rigor, que era estritamente abstrato. Seria insano atribuir a um de nós a navegação do navio ou o monitoramento das máquinas.
Assim sendo, para cada função real a ser executada a bordo, das fainas mais rotineiras às mais delicadas, havia um tripulante encarregado, e isso a cada uma das 24 horas do dia. Seja no mar ou no porto. Assim sendo, a possibilidade de termos alguma coisa de realmente útil para fazer seria devido a algum erro ou, o que é pior, a uma catástrofe. Nas duas viagens que a nossa turma fez, ninguém esperava mais do que um passeio.
Bom, nada é de graça na Marinha. Como aliás na vida: Você pode até achar que não está pagando, mas alguém está, nada é de graça.
Creio que na cabeça de algum homem do mar que bolou, pela primeira vez, a tarefa adestrar coletiva e sistematicamente marujos de primeira viagem, passou a idéia de fazer do "serviço", também conhecido como o "pau", e que nós paisanos chamamos em outras profissões de "plantão", um elemento dessa aprendizagem. Refiro-me a aprender coisas como "nada é de graça na Marinha", "a bordo é melhor sempre ter alguma coisa para fazer", "a razão de ser de uma tarefa não está no seu desempenho, mas na sua função didática", enfim, coisas desse teor.
Dos meus primeiros anos de faculdade, guardei a lição de que a filosofia é inútil porque tem finalidade nela mesma, enquanto as coisas úteis têm sua finalidade em outra, são úteis para alguma coisa. Devo dizer que esse conceito, que tanto deixa os filósofos cheios de si, ajudou-me a compreender - ah, muitos anos depois - que diabos eu estava fazendo depois que me puseram "de serviço a meia-nau".
Dependendo do ponto de vista adotado para conceituar o que é "fazer alguma coisa", a resposta pode ser simples e enganadora ou surpreendente e complexa. A rigor, não tinha nada a fazer, não recebi nenhuma instrução, não havia uma rotina escrita nem, nas primeira horas, fui solicitado a fazer o que quer que fosse. Mas me deram uma boa dica: qualquer dúvida, pergunta para o sargento. E esta é uma regra de ouro do adestramento de jovens paisanos a fim de se tornarem oficiais da reserva. Na dúvida, pergunta ao sargento.
Brevemente aqui: lições aprendidas a meia-nau.

2 comentários:

  1. Guilhon, Realmente o preparo para a vida a bordo foi pouco, para não dizer nenhum. De qualquer forma, desta experiência tomei gosto por mar e navegação e por décadas usufruí da maravilhosa Baia de Angra dos Reis, no início com lanchas e depois, maravilha, com veleiros.

    Mas voltando as lembranças de bordo nas nossas viagens de instrução, certa vez, ao adentrarmos navegando na Lagoa dos Patos, subiu a bordo um Prático o que em sí estranhei. Só depois compreendi a dificuldade da navegação devido a calado e constante alteração do canal de navegação. Estávamos certa noite (acho que com o Marcos Lahtermaher de serviço dentro da Ponte de Comando e o Comandante presente, a pedido do Prático, nos ordenou que nos colocasse fora do passadiço (frio terrível, congelante) com instruções de alertar tão logo avistássemos boias sinalizadoras. Ficamos muito atentos olhando a escuridão à nossa frente. Em certo momento, o Comandante saiu de dentro da Ponte de Comando e ironicamente nos perguntou se já havíamos visto alguma bóia, o respondemos respeitosamente que não. Foi aí que o comandante apontou para uma enorme boia que passava a poucos metros do navio, ao nosso lado e perguntou-nos o nome daquele objeto. Ficamos sem saber onde enfiar a cabeça, esperando receber punição, acreditando que tínhamos colocado o navio e toda a tripulação em grande risco. Felizmente, depois de sonora gargalhada, o comandante retornou para dentro da cabine.

    ResponderExcluir
  2. Era isso que eu queria, instigar a memória desse tempo. Os dilemas a meia-nau não foram poucos, vou lembrar alguns deles. Faça o mesmo...

    ResponderExcluir

Seu comentário será publicado imediatamente, sem moderação.