Não me refiro a se equilibrar no convés em alto mar, resistir ao enjoo, essas coisas: não tínhamos uma idéia sequer da rotina que nos esperava, nem do tipo de atividade ou inatividade a que seríamos submetidos. É fácil entender por que, pelo menos em alguns aspectos.
A verdade é que éramos rigorosamente inúteis para o andamento das coisas - digo todas as coisas, da navegação à segurança, passando pela administração do tempo e das atividades de todos os embarcados. Evidentemente, não éramos capazes de desempenhar a imensa maioria das funções a bordo, uma vez que tudo o que aprendíamos era estritamente teórico - embora eu prefira dizer, com mais rigor, que era estritamente abstrato. Seria insano atribuir a um de nós a navegação do navio ou o monitoramento das máquinas.
Assim sendo, para cada função real a ser executada a bordo, das fainas mais rotineiras às mais delicadas, havia um tripulante encarregado, e isso a cada uma das 24 horas do dia. Seja no mar ou no porto. Assim sendo, a possibilidade de termos alguma coisa de realmente útil para fazer seria devido a algum erro ou, o que é pior, a uma catástrofe. Nas duas viagens que a nossa turma fez, ninguém esperava mais do que um passeio.
Bom, nada é de graça na Marinha. Como aliás na vida: Você pode até achar que não está pagando, mas alguém está, nada é de graça.
Creio que na cabeça de algum homem do mar que bolou, pela primeira vez, a tarefa adestrar coletiva e sistematicamente marujos de primeira viagem, passou a idéia de fazer do "serviço", também conhecido como o "pau", e que nós paisanos chamamos em outras profissões de "plantão", um elemento dessa aprendizagem. Refiro-me a aprender coisas como "nada é de graça na Marinha", "a bordo é melhor sempre ter alguma coisa para fazer", "a razão de ser de uma tarefa não está no seu desempenho, mas na sua função didática", enfim, coisas desse teor.
Dos meus primeiros anos de faculdade, guardei a lição de que a filosofia é inútil porque tem finalidade nela mesma, enquanto as coisas úteis têm sua finalidade em outra, são úteis para alguma coisa. Devo dizer que esse conceito, que tanto deixa os filósofos cheios de si, ajudou-me a compreender - ah, muitos anos depois - que diabos eu estava fazendo depois que me puseram "de serviço a meia-nau".
Dependendo do ponto de vista adotado para conceituar o que é "fazer alguma coisa", a resposta pode ser simples e enganadora ou surpreendente e complexa. A rigor, não tinha nada a fazer, não recebi nenhuma instrução, não havia uma rotina escrita nem, nas primeira horas, fui solicitado a fazer o que quer que fosse. Mas me deram uma boa dica: qualquer dúvida, pergunta para o sargento. E esta é uma regra de ouro do adestramento de jovens paisanos a fim de se tornarem oficiais da reserva. Na dúvida, pergunta ao sargento.
Brevemente aqui: lições aprendidas a meia-nau.









